terça-feira, 21 de julho de 2015

Cunha teria financiado campanhas de mais de 100, dizem deputados

Chico Alencar (Psol-RJ) afirma que correm nos bastidores da Câmara suspeitas de atuação irregular do presidente. "Cadê o PSDB, o DEM, que não pedem o afastamento do Cunha?", diz Silvio Costa (PSC-PE)

por Redação RBA

AGÊNCIA BRASIL

Alencar e Costa: suspeitas da atuação de Cunha correm soltas nos bastidores do Câmara Federal

São Paulo – A situação de isolamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que na sexta-feira (17) anunciou seu rompimento pessoal com o governo Dilma, pode se complicar ainda mais se vierem à tona detalhes de sua atuação nas eleições do ano passado. Acusado de pedir US$ 5 milhões de propina na operação Lava Jato para ele, e outros US$ 5 milhões para aliados, Cunha teria financiado parte dos deputados eleitos. A articulação para disputar e assumir a presidência da Casa teria se iniciado logo após as eleições de outubro, com base em instrumentos da política tradicional, como acredita o deputado Chico Alencar (Psol-RJ).

“Para a presidência da Câmara ele operou também dessa maneira, conversando com deputados recém-eleitos, mais de 40% da nova Câmara, que assumiram neste ano, e também fazendo vínculo com deputados antigos – há quem diga que ele chegou a financiar campanhas, em 2014, de mais de 100 candidatos eleitos, portanto, mais de 100 deputados”, afirma Alencar em entrevista à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

“Também na própria campanha para presidente da Câmara, ele começou de maneira muito cuidadosa correndo todos os estados ainda em 2014, e no recesso de 2014 para 2015 ele teria chegado a alugar um hotel em Brasília, para que os novos deputados e suas esposas ali ficassem, enfim, fez uma política de fidelização nessa base. O discurso dele basicamente era autonomia do parlamento e boas condições de trabalho para os deputados, que implica inclusive nesse famoso Anexo 5 e no Parlashopping. Portanto, sua campanha para presidente da Câmara foi continuação do que ele pratica na política corriqueiramente. E isso lhe rendeu 267 votos, ganhando no primeiro turno”, afirmou Alencar.

O deputado Silvio Costa (PSC-PE), vice-líder do governo na Câmara, reitera as suspeitas. “Não posso provar o que vou dizer agora, mas há quem diga que já na campanha de deputado em 2014 ele teria ajudado vários parlamentares. Eu estou fazendo aqui uma ilação, coisas que eu escuto, eu não posso provar isso, mas é bochincho da Casa. Agora, é evidente que o deputado Eduardo Cunha tem a seu favor o princípio da presunção de inocência. Não posso acusá-lo de nada. Esse recesso agora é atípico. O meu telefone desde sexta-feira não para de tocar, inclusive por ligações de aliados de Cunha dizendo 'olha, isso é uma decisão pessoal dele, eu não quero ser prejudicado, ele não consultou o grupo, ele tomou a decisão sozinho, acho que ele errou...'; então, na minha opinião, Cunha está fazendo agora às claras o que ele já fazia às escondidas. Todo mundo sabia que nesses seis meses a pauta dele era criar dificuldades para o governo Dilma. Ele jogava com a oposição, que jogava com ele. Ou seja, essa oposição brasileira, que só faz trabalhar contra o país, eu quero ver agora qual é o posicionamento da oposição em relação a Eduardo Cunha, eles que são os novos pseudopaladinos da ética.”

O preço da atuação de Cunha é este: uma política menor, rebaixada, conservadora, comenta Chico Alencar. Frente ao escândalo, Alencar diz que “a saída é o afastamento dele da presidência da Casa. Ninguém está pedindo que ele seja cassado ou renuncie ao mandato, mas a função de presidente da Câmara é incompatível como esse tipo de investigação”. Ele lembra que "por muito menos" o Severino Cavalcanti (PP-PE) saiu. "Mas é claro que você não tem nenhum elemento regimental no momento para que essa saída seja imposta. É preciso ter soma de forças, por isso, estamos cobrando que cada partido se manifeste. Nós vemos muitos partidos silenciosos, em cima do muro em relação a uma crise que afeta todo mundo. Na verdade, ele (Cunha) diz que toda a investigação sobre o presidente da Câmara atinge a Câmara como um todo, mas nós não vestimos essa carapuça, queremos sim que o juiz Moro, que o procurador Rodrigo Janot, que o Supremo Tribunal Federal (STF) prossigam na apuração de todos os malfeitos da Lava Jato sobre qualquer pessoa. Pode ter a prerrogativa de foro, mas não tem protecionismo e blindagem para ninguém. Não pode ter."

“Agora, Eduardo Cunha tem de provar ao povo brasileiro que está fora da Lava Jato”, diz Silvio Costa. “E essa história de ficar culpando o Ministério Público e a Polícia Federal é um caminho equivocado”, afirma. “Faço oposição a Eduardo Cunha, mas não sou irresponsável. Irresponsável é esse povo que faz oposição a Dilma, que vive falando em impeachment todo dia. E eles sabem que juridicamente não cabe isso, eles sabem disso. Eles ficam trabalhando contra o país. Quando existe uma denúncia contra um ministro, a primeira coisa que o parlamento faz é pedir para o ministro se afastar. Então, cadê a oposição brasileira, cadê o PSDB, o DEM?! Cadê os pseudopaladinos da ética que não pedem o afastamento de Eduardo Cunha? É essa a questão.”

Barbas de molho

Neste momento, boa parte dos eleitores de Eduardo Cunha na Câmara Federal está com as barbas de molho, cautelosos em sair em defesa do peemedebista, avalia Alencar. Vide o discurso que o presidente da Câmara fez na última sexta-feira, eram quatro ou cinco do lado dele, observa o parlamentar. “À exceção do partido do Paulinho da Força Sindical, chamado Solidariedade, nenhum outro manifestou solidariedade. Há aqueles que aguardam mais notícias, mas serão notícias ruins no futuro, ao que tudo indica. Ele de fato está perdendo essa sustentação que ostentava como inabalável, poderosíssima. Sem dúvida, aquela empáfia, aquela arrogância, vai ter de diminuir.”

Chico Alencar lembra que no início desta legislatura, a CPI dos Planos de Saúde foi engavetada por Eduardo Cunha. “Porque ele foi financiado por uma dessas empresas, a Unimed, e outros planos também. Foi um absurdo ele alegar que não tinha objeto para uma CPI dos planos de saúde. Pergunte aos segurados do Brasil inteiro para ver se não tem irregularidades e muita injustiça na operação desses planos.”

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