sexta-feira, 17 de julho de 2015

Quarenta anos após maior cheia, Recife ainda sofre com alagamentos

Em 1975, capital ficou debaixo d'água, com 80% da área habitada alagada. Após 4 décadas, moradores lembram prejuízos financeiros e emocionais

Por Marina Barbosa e Vitor Tavares

Do G1 PE

Cheia de 1975 começou numa quinta-feira, em 17 de julho. O Rio Capibaribe e diversos canais transbordaram, alagando áreas inteiras. Imagens da época mostram ruas intransitáveis e milhares de pessoas desalojadas (Foto: Reprodução / TV Globo)

Exatamente há 40 anos, o Recife estava submerso. E não é figura de linguagem – literalmente, em 1975, a cidade estava debaixo d'água e presenciava a sua maior cheia, com 80% do território habitado alagado. Todos os serviços pararam, 107 pessoas morreram e um boato ainda causou um estado de pânico jamais visto na capital pernambucana. Depois das quatro décadas, os moradores da cidade, que ainda sofre com os alagamentos e transtornos em dias de chuva, lembram com detalhes como foi o período de cinco dias de muitos prejuízos, financeiros e emocionais.

"Ficou tudo inundado. A água só começou a baixar no outro dia, mas a cidade ficou destruída", lembra a aposentada Maria Helena das Neves, 83 anos. "Não estava chovendo, era um dia de sol lindo. Mas o Rio Capibaribe foi subindo e atingiu seu pico máximo. A população ficou incrédula. Ninguém acreditava que a água chegaria àquela altura", conta o historiador Leonardo Dantas. "Até hoje, não esqueço aquele dia. Foi horrível", arremata a moradora Gênesse Freire, 80.

Enchente da capital foi destacada pela imprensa.
Segundo dados da época, 107 pessoas morreram
(Foto: Fernando Oliveira/Acervo pessoal)

A grande cheia de 1975 começou numa quinta-feira, em 17 de julho, devastando os principais bairros da cidade. O Rio Capibaribe e diversos canais transbordaram, alagando áreas inteiras de bairros com Casa Forte, Madalena, Torre, Cordeiro, Derby, Graças, Iputinga e tantos outros. As ruas ficaram intransitáveis, milhares de pessoas ficaram desalojadas por conta de desabamentos e perda total de suas residências. A água também devastou outras cidades, como São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana. Segundo a Fundação Joaquim Nabuco, 25 municípios banhados pelo Rio Capibaribe foram atingidos.

O jornalista Homero Fonseca, que se debruçou sobre a história e escreveu um livro a respeito da época, lembra que o período foi marcado por cobertura intensa da mídia nacional. Na ocasião, ele trabalhava para o jornal O Estado de São Paulo e viu de perto as famílias perdendo o patrimônio de uma vida inteira. "A cidade ficou uma desgraceira, as árvores tombaram, os carros virados por todos os lugares, cobras e outros bichos também tomaram conta. Não dava para saber onde terminava o rio e onde começava a cidade".

Gênesse Freire lembra bem. Ela saiu de casa, em São Lourenço da Mata, logo no início da enchente. Quando viu a água chegar à altura da mesa, decidiu ir para a casa da irmã, na Madalena, na Zona Oeste do Recife, com o marido e as duas filhas, uma de 2 anos e a outra de 1 mês. Desesperada em busca de um lugar seguro, só levou uma muda de roupa para as meninas. Mal sabia que o bairro também ficaria inundado. "À noite, a água começou a subir. Quando chegou à metade da casa, subimos para o teto da vizinha. Fiquei ali a noite toda. Só via o povo passar pedindo socorro", recorda.

Gênesse saiu de casa com as filhas e uma muda
de roupa (Foto: Genesse Freire / Acervo pessoal)

A família só saiu dali quando os vizinhos conseguiram um barco. "Era uma canoa, que quase vira quando chegamos perto do mercado da Madalena por causa da correnteza", conta Gênesse, que se abrigou na casa de amigos. Ela só pôde voltar para a própria residência, em São Lourenço, depois de 15 dias. "Os móveis estavam todos espalhados pela rua. Tudo acabado. Quando eu puxava uma roupa, só vinham os fiapos, cheios de lama. Por um palmo, a água não chegou ao teto", relata a dona de casa, que não quis mais morar na cidade depois da enchente e acabou se mudando para o Recife. Mas, na capital, a irmã dela também perdeu tudo e só pôde voltar para casa um mês após a tragédia.

Foram tantos estragos que o Governo de Pernambuco declarou estado de calamidade pública naquele mês de julho. Durante dois dias, o município do Recife ficou praticamente isolado do resto do Brasil e mais da metade da cidade ficou sem energia elétrica. Hospitais funcionavam à luz de velas, e o transporte pelos bairros era improvisado em botes e barcos. O historiador Leonardo Dantas, que era repórter na época, lembra-se da coletiva de imprensa em que o então governador, Moura Cavalcanti, alertou sobre os riscos da enchente, no primeiro dia da inundação. "Ele disse: 'vão para casa, porque será uma cheia nunca vista'. Saí da reunião e fui para a redação escrever a matéria. Depois, fui para casa, mas o ônibus já não passava mais pela Ponte da Torre. Segui andando com água na cintura", lembra.

Durante a noite, Leonardo viu a água subir também dentro de casa. Quando não podia mais ficar ali, levou a mãe de 63 anos para a casa de uma amiga e dormiu na Praça da Torre, onde a enchente não havia chegado. A Praça do Espinheiro também serviu de refúgio para muita gente. "Passamos quatro dias isolados. Mas o pior da cheia é o depois. Você volta e vê que perdeu tudo", afirma. Leonardo só conseguiu recuperar alguns poucos móveis, Ficou sem eletrodomésticos, roupas, documentos, fotos e livros. O manuscrito da obra que pretendia lançar naquele ano também foi consumido pela água. "O livro estava pronto. Chamava-se Retalhos da Província, porque era escrito em capítulos, com vários detalhes de Pernambuco", revela o historiador, que nunca reescreveu a obra. "Teria que voltar, forçar a memória. A vida continua com outras coisas. Talvez eu tenha abordado esses assuntos de outra forma em outros livros", explica. Na cheia de 1966, o historiador também teve a casa invadida pela água. "Dizem que só me restou o chão molhado", diz.

Famílias perderam o patrimônio de uma vida inteira, árvores tombaram e carros ficaram virados por todos os lugares. Em meio ao caos, hospitais funcionavam à luz de velas, e o transporte pelos bairros era improvisado em botes e barcos (Foto: Fernando Oliveira/Acervo pessoal)

Mas, para Leonardo, sua perda não foi nada se comparada à de outras pessoas. Ele lembra de um amigo que teve até o primeiro andar de casa inundado e de outro que abrigou mais de 18 pessoas após a enchente. Já Maria Helena das Neves viu carros amarrados a árvores para não serem levados pela correnteza e um casal de passarinhos afogado na gaiola. A aposentada também conta a história de uma das 107 vítimas fatais da grande cheia: seu irmão, que tinha 31 anos. "Ele morava em Garanhuns [Agreste do estado], mas veio ajudar o padrinho, que teve a casa inundada na Caxangá [Recife]. Quando estava colocando as coisas no lugar, pegou na geladeira e levou uma descarga elétrica. Ficou no chão molhado até um motorista levá-lo para o hospital, mas morreu", lamenta.

"De fato, foi a maior enchente que o Recife enfrentou. Dois terços da cidade ficaram inundados. Tivemos que começar tudo de novo", diz Leonardo Dantas, que analisou as cheias do Rio Capibaribe desde o século 19. Segundo ele, a construção de barragens ao longo do curso de água evitou novas cheias como esta. As obras ainda teriam permitido o crescimento de áreas que ficavam inundadas com frequência até a década de 1970, como Apipucos e Casa Forte. "Ninguém construía nada ali, porque alagava até com a maré alta. Era considerada uma terra maldita", afirma.

Boato de que a barragem de Tapacurá teria estourado gerou pânico generalizado na cidade
(Foto: Reprodução / TV Globo)

Pânico de um boato: 'Tapacurá estourou'
Talvez o episódio mais marcante na cheia de 1975 seja o boato de que a barragem de Tapacurá teria estourado. O pânico generalizado aconteceu quatro dias após o início da enchente, quando os recifenses tentavam voltar à rotina e contabilizavam prejuízos na cidade. Quem viveu o drama lembra o cenário: pessoas abandonaram seus carros nas ruas, deixaram seus comércios abertos e corriam sem rumo. Em geral, a crença é de que uma grande onda viria acabar com a cidade, como um tsunami.

"Era um dia bonito, de sol. Eu estava na janela de casa, no Espinheiro, quando comecei a ver pessoas correndo. Foi quase uma revolução. Todo mundo ficou muito amedrontado, porque já havia muita água na cidade", lembra a aposentada Maria Helena das Neves, 83.

O historiador Leonardo Dantas lembra que o então
governador, Moura Cavalcanti, alertou sobre riscos
da enchente. Governo estadual decretou estado de
calamidade pública (Foto: Reprodução / TV Globo)

Em seu livro "Tapacurá, viagem ao planeta dos boatos", o jornalista Homero Fonseca fez uma investigação acerca da origem do boato. Ele estava na redação da sucursal do jornal O Estado de São Paulo, na Rua do Riachuelo, Centro da capital, quando viu a população correndo sem rumo.  "Eu fiquei apavorado na hora também, mas a gente manteve a calma e resolveu procurar as autoridades, que negaram a informação. Mas o caos já estava tomado, não havia ordem na cidade".

A conclusão da pesquisa aponta que o boato teria surgido na Avenida Caxangá, uma das mais atingidas pela cheia. Alguém soltou o comentário, que foi se espalhando no boca a boca e através das rádios, causando pânico na cidade. "Ninguém pensa em conferir se é verdade ou não porque havia um sentimento coletivo de desespero muito grande. O estado de espírito da cidade estava afetado, todos estavam com medo", aponta Homero, que estudou casos parecidos ao redor do mundo, como em São Francisco, nos Estados Unidos. Também através da pesquisa, ele confirmou que, caso a barragem houvesse estourado, não viria uma onda. O rio subiria aos poucos, em algumas horas.

Recentemente, o boato foi revisitado, em 2011. Dessa vez, através das redes sociais, também após uma grande cheia. O que aconteceu foi que a Barragem de Carpina, na Zona da Mata do estado, precisou liberar mais água, para aguentar a quantidade acumulada que vinha do interior. "Isso gerou pequenas inundações na beira do rio. E alguns fatos vão acontecendo dando força ao boato", explica Homero Fonseca. No dia da grande chuva, o Shopping Plaza, na Zona Norte do Recife, acabou ficando alagado, universidades cancelaram aulas e repartições públicas liberaram os funcionários.

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