quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Portas abertas à insegurança no Hospital da Restauração

Margarette Andrea

JC Online

Fachada da unidade foi pichada há dez dias, mesma ocasião em que tentaram entrar na casa de médicos residentes

Divulgação

A insegurança está entrando pela porta da frente na maior emergência do Norte/Nordeste. Sem ninguém para barrá-la. Com os vigilantes em greve devido ao não pagamento dos salários de agosto, falta controle sobre as cerca de seis mil pessoas que circulam pelo Hospital da Restauração (HR), diariamente. Assim, além das tradicionais mazelas do setor, como a falta de medicamentos, de materiais de trabalho e de estrutura, os funcionários e pacientes passaram a conviver, também, com uma rotina de roubos e medo.

Denúncias chegaram ao JC via Facebook e foram confirmadas por vários funcionários, que pediram para não ser identificados por medo de represália. Pelo menos seis ocorrências foram registradas no posto policial local, este mês.

A ausência dos vigilantes foi constatada facilmente pela repórter, que esteve no hospital, nesta terça, e entrou sem ser incomodada. Apenas uma auxiliar de portaria da empresa Líber (cujos funcionários estão de aviso prévio) estava na entrada, mas não abordava as pessoas que entravam. A repórter circulou do segundo ao nono andar, passando pelos corredores que dão acesso à UTI, pediatria, neurologia e até acomodação dos residentes sem avistar nenhum vigilante.

“Houve arrastão no domingo passado, no quarto andar. Eu estava lanchando quando três policiais passaram, de arma em punho, procurando dois ladrões. Isso tem sido uma constante, os bandidos sabem que estamos expostos”, relata uma técnica de enfermagem.

“No final de semana anterior (dias 17 e 18) ladrões roubaram pacientes, arrombaram o andar da residência médica e picharam a fachada, por volta de 1h30. Chamamos a polícia, que só chegou às 4h, eles já tinham fugido. Algumas enfermarias estão sendo trancadas à noite, horário em que os bandidos agem mais. Eles usam facões”, denuncia outra auxiliar de enfermagem.

Um médico residente confirma que os ladrões bateram com força na porta de um dos quartos e o morador precisou se esconder dentro do banheiro e pedir ajuda. A providência foi um cadeado a mais no acesso.

A pichação já foi pintada, mas funcionários a fotografaram. Nela, um protesto: “Quantos vão morrer na fila de espera?”, dizia o autor, que se intitula Androide. Entre os objetos roubados, há registro de dois notebooks e alguns celulares.

“Estamos com medo, sobretudo porque há vários presos sob custódia no hospital. E se vier alguém resgatá-los ou matá-los? Qualquer pessoa está entrando aqui”, alerta outra funcionária da UTI. Um porteiro diz que bandidos entraram armados, no domingo, ameaçando matar um custodiado que não teriam localizado. Um visitante conta ter entrado um homem, no mesmo dia, com uma arma de brinquedo, na emergência.

Todos os empregados abordados pela reportagem confirmaram a situação de insegurança do hospital, relatando ocorrências em vários andares. Também reclamam da falta de pessoal. Informam ter havido redução do número de recepcionistas e dos terceirizados em geral, o que aumentaria ainda mais a dificuldade de atendimento e controle de acesso.

Secretaria de Saúde sem data para resolver problema

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirma o atraso no pagamento à empresa de segurança Rima, responsável pelo serviço de vigilância no HR, e à Líber, que presta outros serviços, mas não dá prazo para resolver a situação. Informa apenas, por meio de nota, “que não tem medido esforços para regularizar o repasse às empresas terceirizadas” e que “vem dialogando com a Rima sobre a normalização dos pagamentos aos vigilantes”.

Quanto à situação de insegurança, diz que “tem mantido contato com a Polícia Militar para que sejam reforçadas as rondas no local”.

A SES também confirma que, diante do quadro de dificuldades pelo qual o País passa, “vem tomando medidas para reduzir e otimizar o uso dos recursos públicos em toda a rede... realizando estudo junto à direção para reduzir o custo, mas sem comprometer a assistência aos usuários”.

Sobre os profissionais da Líber que estão com aviso prévio, a SES diz que também vem discutindo com a empresa para que a situação seja resolvida de forma rápida e sem prejudicar trabalhadores ou usuários do SUS.

A secretaria informa, ainda, que os maqueiros estão com aviso prévio porque o contrato com a empresa terceirizada está vigente até novembro e uma nova licitação já está em curso para contratação do serviço, podendo haver outra vencedora do certame.

O gerente-geral da Rima, Luciano Monteiro, explica que não tem feito o pagamento aos vigilantes porque precisa do repasse do Estado. “Acredito que esta semana nos pagam pelo menos o mês de agosto e os trabalhadores retomam o serviço, mas a greve não é 100%, cerca de 40% estão indo trabalhar”, assegura. Segundo ele, são 17 vigilantes por turno no HR, o que totaliza 68 empregados.

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