quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Em 10 anos, Pernambuco foi do crescimento à crise econômica

Economia de Pernambuco se dinamizou nos últimos dez anos, mas sofreu fortemente com a crise

Paulo Veras

O ex-governador Eduardo Campos ao lado do ex-presidente Lula (PT) e do ex-presidente da Venezuela Hugo Chaves no canteiro de obras da Refinaria Abreu e Lima
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Uma refinaria de petróleo, dois estaleiros, um complexo químico-têxtil, uma fábrica de automóveis capaz de produzir anualmente 250 mil veículos. Por anos, Pernambuco foi um Eldorado de desenvolvimento. Alguns dos investimentos já estavam previstos antes de o PSB voltar ao governo, em 2007. Mas foram impulsionados por vultosos investimentos públicos que eram facilitados pela relação de amizade entre o ex-governador Eduardo Campos e o ex-presidente Lula (PT). Impulsionada, a economia de Pernambuco não só cresceu; como diversificou sua matriz e, até ser solapada pela seca e pela quebradeira na Petrobras, cresceu mais do que o País.

Não à toa, dois ex-secretários estaduais de Desenvolvimento integram a cúpula do PSB do Estado: o senador Fernando Bezerra Coelho e o prefeito do Recife, Geraldo Julio. Até 2011, todos os números do Produto Interno Bruto (PIB) eram muito favoráveis. Por um lado, o governo se especializou na atração de investimentos privados através da concessão de benefícios fiscais. Do outro, a aliança entre o governador e o presidente Lula garantia o forte aporte da União em investimentos públicos como a Transposição e a Refinaria Abreu e Lima (Rnest). Mesmo em 2009, quando a crise internacional impôs estagnação ao Brasil, Pernambuco marcou um crescimento de 1,6%. Aquecida, a construção civil engrossava a fileira de empregos. Com as novas plantas, a indústria avançou de 19,2% para 22% da economia do Estado.

“A partir de 2012, você já começa a verificar os efeitos da seca na agropecuária. Junto a isso, começava a se observar mudanças na região de Suape, com uma certa diminuição no ciclo de expansão da construção civil à medida que o estaleiro e a primeira parte da refinaria ficaram prontos”, explica Maurílio Lima, diretor de Estudos e Estatísticas da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas (Condepe/Fidem). O PIB que crescia 4,5% em 2011 e fechou 2014 em 1,9%.

O ano da morte de Eduardo Campos e da eleição de Paulo Câmara foi o mesmo que deflagrou a Operação Lava Jato. Ícone do crescimento do Estado, a Rnest entrou na mira da investigação. Empreiteiras que trabalhavam na construção da planta industrial foram tragadas pelo escândalo de corrupção, assim como os agentes políticos; inclusive o próprio Eduardo. Sem receber, as empresas passaram a ter problema de caixa, dever fornecedores e funcionários. Em meio às incertezas, a Petrobras suspendeu as obras no segundo trem de refino, deixando a Rnest pela metade. No Brasil, a onda de desligamentos só foi menor do que a da construção de Brasília.

Segundo o presidente do Sintepav-PE, Aldo Amaral, entre 40 mil e 50 mil homens trabalharam no auge da construção da Rnest. “Hoje não tem 800 na área de construção”, estima. “Tem que botar as obras para recomeçar porque é o ponto de partida. É dali que diversos outros segmentos começam a se movimentar”, defende o sindicalista. Em dois anos, Pernambuco perdeu 136,5 mil empregos formais depois da crise.

'EFEITO PETROBRAS'

“O efeito Petrobras foi devastador”, afirma Maurílio. Braço da petrolífera, a Transpetro cancelou a construção de sete navios no Estaleiro Atlântico Sul e três no Vard Promar. A Companhia Petroquímica de Pernambuco (PQS) e a Companhia Têxtil Integrada de Pernambuco (Citepe), que custaram R$ 9 bilhões, foram vendidas por R$ 1,2 bilhão para a mexicana Alpek no final do ano passado, como parte do plano de desinvestimento da Petrobras. Em 2016, as duas empresas deram R$ 1,6 bilhão de prejuízo. “Foi um freio. A economia pernambucana sofreu um baque. Talvez seja a economia que mais sofreu, entre os estados, com essa crise na Petrobras”, afirma Maurílio.

Em 2015, o PIB de Pernambuco encolheu 3,5%. Os dois primeiros trimestres de 2016 também foram de dura retração (-7,6% e -3,5%). Com cenário nacional turvo, não há previsão de quando as coisas vão melhorar. Para o governo, porém, o trabalho dos últimos dez anos garante uma base industrial sob a qual Pernambuco conseguirá se recuperar mais rápido que o resto do País.

Quando se olha para o PIB, o que tem segurado a indústria é a Jeep. O polo automotivo de Goiana, na Mata Norte, é um dos mais modernos do mundo e, embora enfrente gargalos de infraestrutura, produz para além do mercado brasileiro em crise. Juntos, a fábrica da Jeep e 16 fornecedores empregam 9.000 pessoas. Em 2016, primeiro ano cheio desde que começou a operar, a empresa produziu 122 mil unidades dos modelos Jeep Renegade, Fiat Toro e Jeep Compass. Entre janeiro e novembro do ano passado, o Porto de Suape exportou 32,8 mil veículos.

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