domingo, 15 de janeiro de 2017

Hecatombe de Garanhuns completa 100 anos neste domingo

Mais de 100 homens fortemente armados espalharam terror e mortes pelas ruas da cidade no dia 15 de

Por: Wagner Oliveira - Diario de Pernambuco

Publicado em: 14/01/2017 13:00 Atualizado em: 15/01/2017 08:54

Viúvas e órfãos da Hecatombe de Garanhuns. Foto: Ricardo Fernandes/DP
Um episódio que por muitos anos permaneceu velado na cidade de Garanhuns, no Agreste do estado, completa 100 anos neste domingo. Originada a partir de uma briga entre duas correntes políticas, a Hecatombe de Garanhuns deixou cicatrizes profundas. Até hoje, há quem se emocione ou evite falar sobre o fato que espalhou sangue e dor pelo município. No dia 15 de janeiro de 1917, num massacre impiedoso, 18 pessoas foram mortas no prédio onde funcionava a cadeia pública da cidade. Entre as vítimas, estavam sete membros da sociedade, cinco soldados da Polícia Militar, cinco jagunços e um morador que passava pela rua no momento do tiroteio.

O estopim para a matança dos chefes de tradicionais famílias garanhuenses, como Jardins, Miranda e Ivo foi o assassinato do deputado estadual Júlio Brasileiro, morto pelo capitão Francisco Sales Vila Nova, no Café Chile, na Praça Independência, no Recife, em 12 de janeiro daquele ano. Um crime cometido por apenas um homem mas que foi vingado em pessoas sem nenhuma ligação com a morte do deputado.

“O assassinato de Júlio Brasileiro foi o que gerou a Hecatombe de Garanhus. Após saber da morte do marido, a viúva Ana Duperron pensou se tratar de um complô armado pelos adversários políticos dele e decidiu mandar matar todos eles. Foi um dia de massacre em Garanhuns. Pessoas inocentes foram assassinadas dentro da cadeia públic, onde achavam que estariam protegidas. Policiais que faziam a guarda também foram mortos”, conta o professor e escritor José Cláudio Gonçalves de Lima, autor do livro Os sitiados: a Hecatombe de Garanhuns.

 

O dia em que Garanhuns virou cenário de faroeste

A notícia do assassinato de Júlio Brasileiro, que ascendia como liderença política na região, rapidamente espalhou-se por Garanhuns. Após receber o telegrama enviado pelo deputado Eutrópio Silva, no qual foi informada da morte do marido, Ana Duperron e os parentes de Júlio escreveram para Alfredo Brasileiro Viana, sobrinho de Júlio que morava em Brejão, pedindo que ele viesse a Garanunhs e trouxesse vários jagunços. A presença dos mais de 100 homens armados pelas ruas da cidade assustou a população e os adversários políticos de Brasileiro. A princípio, a viúva e os familiares de Júlio disseram que os jagunços seriam para protegê-los, no entanto, em pouco tempo, iniciaram a vingança do crime ocorrido no Recife. Casas e estabelecimentos comerciais dos políticos que faziam oposição a Brasileiro começaram a ser atacados.

“Ao saber da morte do marido, Ana Duperron disse que não receberia pêsames. Falou também que só vestiria luto quando as outras vestissem e que só choraria quando as outras chorassem. Referindo-se às mulheres dos líderes políticos adversários de Júlio Brasileiro. Ela acreditava que a morte do marido havia sido tramada por eles”, ressalta o professor e escritor José Cláudio Gonçalves de Lima. Cláudio é o coordenador da Comissão do Memorial do Centenário da Hecatombe de Garanhuns, criada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Garanhuns para registrar a passagem dos 100 anos da hecatombe.

Com medo, muitas famílias deixaram a cidade. Quem ficou, preferiu o silêncio. Nem mesmo os descentes dos envolvidos ou vitimados na hecatombe costumavam tocar no assunto. E assim foi por muito anos. Hoje, pouca gente conhece a história. Natural de Garanhus, o escritor Mário Márcio de Almeida Santos também escreveu sobre o tema. Ganhou o prêmio Othon Bezerra de Melo, da Academia Pernambucana de Letras (APL), em 1992, com o livro Anatomia de uma tragédia - a Hecatombe de Garanhuns. Mário Márcio, que ocupou a cadeira de número 4 na APL, morreu em setembro de 2015, aos 88 anos.

Com ameaças a todo momento, o pânico tomou conta da cidade naquele 15 de janeiro. “Os jagunços e parentes de Brasileiro foram até a casa de Manoel Jardim, onde agrediram as filhas e a esposa dele. Em seguida, foram ao armazém dos irmãos Miranda e atiraram várias vezes, mas Argemiro e Júlio Miranda estavam escondidos. Depois seguiram para o armazém de Sátiro Ivo e ameaçaram invadí-lo, mas depois foram embora”, relata José Cláudio Goncalves. Ainda segundo o professor, os agressores seguiram para a casa de Antônio Borba Júnior, aliado dos Jardins, mas também não o encontraram. 

Temendo pela sua vida, Borba Júnior pediu ajuda ao delegado e tenente Antônio de Pádua Pimentel Meira Lima, que o aconselhou a se esconder na delegacia, onde também funcionava a cadeia pública da cidade. “Logo em seguida, o tenente Meira Lima foi até a casa da viúva Ana Duperron, onde já estava o juiz José Pedro de Abreu e Lima e os parentes de Brasileiro. Foi quando nasceu o plano de mandar todas as outras lideranças políticas para a delegacia dizendo que lá estariam protegidos. Além disso, o delegado havia retirado grande parte da munição que estava na delegacia. Horas mais tarde, perto das 15h, todos os líderes políticos foram supliciados. Foi um tiroteio que durou quase meia hora. Foi muita violência. O reforço policial que estava vindo do Recife só chegou por volta das 16h”, destaca o professor.

“Houve uma grande conspiração para que esse fato (hecatombe) acontecesse. Todos que morreram eram pessoas idôneas, fundadores de Garanhuns. Manoel Jardim foi quem trouxe iluminação para essa cidade, inaugurou a primeria escola e calçou várias ruas. Além da elite política que foi assassinada, cinco soldados morreram e hoje pouca gente sabe quem foram essas pessoas que morreram tentando defender os outros, o que é uma grande injustiça”, aponta o advogado Luís Afonso de Oliveira Jardim, 57 anos, descendente de Manoel Jardim e membro da Comissão do Memorial do Centenário da Hecatombe de Garanhuns. Luís Afonso conta que só houve reação por parte das pessoas que estavam dentro da delegacia porque suas tias conseguiram mandar duas armas e munições escondidas em bandejas de comida. “Somente por isso eles reagiram. Mas não conseguiram sobreviver. Manoel Jardim estava tão doente que foi levado para a cadeia pública em uma cadeira”, completa Luís Afonso.

Aos 74 anos e neta de Argemiro Tavares de Miranda, dona Norma Carneiro Leão de Miranda Losada conta o que sabe sobre a hecatombe. “Esse assunto sempre foi muito velado na família. Meu pai tinha 8 anos quando meu avô foi assassinado e minha avó, Mirandolina Souto de Miranda, deixou Garanhuns com os quatro filhos pequenos. Meu tio Teotônio por pouco não morreu também. Ele estava na cadeia pública, mas os jagunços disseram que não matariam criança. Neste domingo, vou mandar celebrar uma missa em memória de todos os que morreram na hecatombe”, destaca Norma Miranda. Até hoje, dona Norma guarda o relatório do inquérito policial feito pelo então juiz de Gravatá, José Francisco Ribeiro Pessoa, que investigou as mortes. As cópias foram custeadas pelas viúvas das personalidades assassinadas, entre elas a avó de dona Norma.

Leia a matéria completa na superedição de fim de semana.

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