quarta-feira, 10 de maio de 2017

DRAMA - Com remédio em falta em PE, menino pede insulina de presente de aniversário



Kayky está sem receber o medicamento, do governo do Estado, há cinco meses


Cinthya Leite




"Meu coração só bate com insulina", diz Kayky, que tem diabetes tipo 1
Alexandre Gondim/JC Imagem

Neste dia 10 de maio, o estudante Kayky Rafael Vasconcelos da Silva celebra idade nova. Para comemorar os 13 anos, ele não pediu smartphone nem videogame – presentes que agradariam muitos adolescentes. O pedido foi inusitado: “Eu já estou aceitando presente de aniversário. Agradeceria se alguém me desse insulina Lantus”. Essa foi a mensagem que Kayky compartilhou, na semana passada, nos grupos da família do WhatsApp. Assim como todas as pessoas com diabetes tipo 1, Kayky precisa de insulina para viver (bem) com uma doença que acomete mais de 13 milhões de brasileiros. Desde dezembro do ano passado, ele está sem receber a Lantus pela Farmácia de Pernambuco, onde cerca de dois mil pacientes estão cadastrados para receber insulinas e insumos, como tiras usadas para se fazer o automonitoramento da glicose.


A Lantus (nome fantasia para a insulina glargina, de ação prolongada) faz parte do esquema terapêutico de pacientes que não conseguem controlar a glicose com outras insulinas. “Quando as crianças têm episódios de hipoglicemia com frequência, indicamos Lantus e outra insulina ultrarrápida. Juntas, têm ação semelhante à da insulina fabricada por uma pessoa sem diabetes, diminuem risco de hipoglicemia, permitem flexibilidade da dieta e diminuem o risco de complicações associadas à doença, como problemas visuais e renais”, explica a endocrinologista Jacqueline Araújo, chefe do Serviço de Endocrinologia Pediátrica do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

No serviço, Kayky recebe acompanhamento médico desde 1 ano, idade em que foi diagnosticada a doença. “Quando pequeno, ele tinha episódios de hipoglicemia imprevisíveis, o que levou a convulsões. Dessa maneira, desenvolveu um quadro de epilepsia”, diz Jacqueline. A mãe de Kayky, a professora Fabiana da Silva, 36, conta que ele toma dois medicamentos anticonvulsivantes. “Ele tem diabetes de difícil controle. A glicose baixa de vez e vem a hipoglicemia. Por isso, toma os anticonvulsivos”, relata Fabiana, que também convive (desde os 18 anos) com a diabetes tipo 1.

Assim como o filho, ela precisa usar a Lantus, mas aplica outras insulinas porque, com o dinheiro que consegue juntar, compra para Kayky. A Lantus que ele tem usado nos últimos dias foi dada pelo avô materno. A medicação – que para ele dura de oito a dez dias – custa R$ 133, e Kayky precisa de três por mês. Diante do desabastecimento na Farmácia de Pernambuco, Lantus virou sinônimo de presente na família. “Na Páscoa, no lugar de ovo de chocolate diet, a tia lhe deu insulina. E recentemente ganhou tiras para aferir a glicose. Cada caixa, que só dura uma semana, custa R$ 100”, diz Fabiana.


No aplicativo de mensagens, Kayky ainda escreveu para parentes: “Meu coração só bate com insulina”. A frase demonstra que ele compreende como a medicação ajuda a evitar comprometimentos severos. A medicina ratifica que a insulina, ao lado de outras estratégias para controlar a doença, é necessária para manter o bem-estar dos pacientes. “Sem acompanhamento adequado, há chance de a pessoa ter hipoglicemia grave e risco aumentado de morte. Além disso, passados cinco anos de diabetes sem tratamento apropriado, aumenta-se a possibilidade de problemas na visão e nos rins aparecerem”, esclarece Jacqueline.

DENÚNCIAS

Outros pacientes têm se queixado sobre a irregularidade na distribuição da insulina. Nas redes sociais, mães de crianças e adolescentes com diabetes relatam já terem ido ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) denunciar o desabastecimento. “A última entrega de Lantus foi realizada em 12 de março. E não havia para todos os pacientes”, diz a orientadora em diabetes da Associação Pernambucana do Diabético Jovem, Cidamar Oliveira.

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informa que “está finalizando o processo licitatório da insulina glargina. A compra é de 57.800 unidades (solução injetável)”. Após a conclusão da compra, segundo a SES, o fornecedor tem até 15 dias para a entrega do produto. O MPPE destaca que o Estado fez um cronograma para normalizar a dispensação de todos os medicamentos, incluindo insulinas. “O calendário não foi cumprido. O prazo terminou em março. Acompanhamos os casos e tentamos regularizar a distribuição”, diz a promotora de justiça de Defesa da Saúde da Capital, Ivana Botelho

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